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7 de abril de 2026
Lúpus Heritematoso sistêmico: o que é, efeitos na gravidez diagnóstico e tratamento

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma das doenças autoimunes mais complexas e desafiadoras da prática médica. Sua apresentação clínica é extremamente variada: pode envolver desde alterações cutâneas e articulares até o comprometimento de órgãos vitais, como rins e sistema nervoso central. Trata-se de uma condição inflamatória crônica que acomete, predominantemente, mulheres em idade fértil e evolui com períodos alternados de atividade e remissão.

Nos últimos anos, avanços importantes na pesquisa ampliaram a compreensão sobre seus mecanismos, diagnóstico e manejo. Ainda assim, o LES requer acompanhamento contínuo e individualizado, especialmente em situações de maior vulnerabilidade, como a gestação, quando os riscos maternos e fetais podem se intensificar.

Este conteúdo reúne, de forma clara e didática, informações essenciais sobre o lúpus eritematoso sistêmico: definição, impacto na gestação, critérios diagnósticos e opções terapêuticas, com base em referências acadêmicas especializadas.

O que é o lúpus eritematoso sistêmico?

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune inflamatória, crônica e multissistêmica, caracterizada por períodos de atividade e remissão.comete principalmente  mulheres em idade reprodutiva e envolve a produção de auto-anticorpos que atacam estruturas do próprio organismo, provocando inflamação e danos em diversos órgãos.

Entre os mecanismos imunológicos envolvidos estão a ativação anormal de linfócitos B e T, além da produção de anticorpos antinucleares (ANA), anti-DNA de dupla hélice e outros auto-anticorpos. Esses autoanticorpos formam complexos imunes que se depositam em tecidos e desencadeiam processos inflamatórios.

As manifestações clínicas mais comuns incluem:

  • Artrite e dores articulares

  • Erupções cutâneas (como o clássico eritema em asa de borboleta)

  • Fadiga intensa

  • Febre e perda de peso

  • Queda de cabelo (alopecia)

  • Comprometimento renal (nefrite lúpica)

  • Envolvimento do sistema nervoso central

A causa exata da doença permanece desconhecida, e acredita-se que resulte da interação entre fatores genéticos, hormonais e ambientais, como exposição à radiação ultravioleta e infecções virais.

Efeitos na gravidez

A gravidez em mulheres com lúpus eritematoso sistêmico requer atenção especial devido ao risco aumentado de complicações, especialmente quando a doença está em atividade. Entre os problemas mais frequentes estão:

  • Abortamentos espontâneos

  • Parto prematuro

  • Pré-eclâmpsia

  • Restrição do crescimento intrauterino (RCIU)

  • Óbito fetal intrauterino

O ideal é que a gestação seja planejada e ocorra durante um período de remissão da doença. Isso reduz significativamente os riscos tanto para a mãe quanto para o bebê.

A presença de autoanticorpos anti-Ro/SSA e anti-La/SSB está relacionada a uma condição chamada lúpus neonatal, que pode causar lesões cutâneas transitórias, alterações hepáticas e, nos casos mais graves, bloqueio cardíaco congênito no feto — podendo necessitar de marcapasso após o nascimento.

É essencial que as pacientes mantenham acompanhamento multidisciplinar com obstetra, reumatologista e, se necessário, outros especialistas. Medicamentos como a hidroxicloroquina são seguros na gestação e ajudam a manter a doença sob controle, enquanto drogas como metotrexato, ciclofosfamida e micofenolato devem ser evitadas devido ao risco de malformações fetais.

Diagnóstico

O diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico (LES) é clínico-laboratorial e segue, atualmente, os critérios de classificação de 2019 do ACR/EULAR, que são os mais utilizados na prática e na literatura.

Esses critérios não substituem o julgamento clínico, mas organizam sinais, sintomas e exames para orientar o diagnóstico.

 

Etapa 1 — Critério de entrada (obrigatório)

Para aplicar os critérios, a paciente deve ter FAN positivo (título ≥1:80, por imunofluorescência).

Sem FAN positivo → não se seguem os critérios.

 

Etapa 2 — Soma de pontos (≥10 confirma LES)

Após FAN positivo, avaliam-se domínios clínicos e imunológicos.
Cada item tem uma pontuação; atingir 10 pontos ou mais → diagnóstico de LES.

A seguir, a lista dos critérios (ACR/EULAR 2019):

 

CRITÉRIOS CLÍNICOS

  1. Constitucional
  • Febre > 38,3°C — 2 pontos
  1. Manifestações cutâneas
  • Alopecia não cicatricial — 2
  • Lúpus cutâneo subagudo ou discoide — 4
  • Lúpus cutâneo agudo (rash malar, fotossensibilidade) — 6
  1. Articulações
  • Sinovite em ≥2 articulações ou dor articular + rigidez matinal — 6
  1. Neurológico
  • Delírio — 2
  • Psicose — 3
  • Convulsões — 5
  1. Serosite
  • Pleurite ou derrame pleural — 5
  • Pericardite — 6
  1. Hematológico
  • Leucopenia <4.000/mm³ — 3
  • Trombocitopenia <100.000/mm³ — 4
  • Anemia hemolítica — 4
  1. Renal
  • Proteinúria >0,5 g/24 h — 4
  • Biópsia renal com glomerulonefrite lúpica classes II ou V — 8
  • Biópsia renal classes III ou IV — 10

 

CRITÉRIOS IMUNOLÓGICOS

  1. Autoanticorpos
  • Anti-dsDNA — 6
  • Anti-Sm — 6
  • Antifosfolípides (anticardiolipina, anti-β2GP1, anticoagulante lúpico) — 2

 

  1. Complemento
  • C3 ou C4 baixos — 3
  • Ambos C3 e C4 baixos — 4

 

  1. Teste direto de Coombs positivo (sem anemia hemolítica) — 4

✔ Como o diagnóstico é firmado?

  1. FAN ≥1:80 (obrigatório)
  2. Soma dos pontos dos critérios clínicos + imunológicos
  3. ≥10 pontos → LES

 

Exames geralmente solicitados na investigação inicial

  • FAN (imunofluorescência)
  • Anti-dsDNA, anti-Sm
  • Antifosfolípides
  • Complemento (C3, C4)
  • Hemograma
  • Função renal + EAS
  • PCR/VHS
  • Funções hepáticas
  • Proteinúria/24h ou relação proteína/creatinina

Tratamento

O tratamento do lúpus eritematoso sistêmico deve ser personalizado de acordo com as manifestações clínicas e a gravidade da doença. O objetivo é controlar a inflamação, prevenir danos aos órgãos e melhorar a qualidade de vida do paciente. 

Medidas gerais (todas as pacientes)

  • Fotoproteção rigorosa (FPS ≥ 50, evitar sol)
  • Suspender tabagismo
  • Vacinação atualizada (evitar vacinas vivas se em imunossupressão)
  • Controle de fatores de risco cardiovascular
  • Acompanhamento multiprofissional

As principais classes de medicamentos são:

  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): úteis para controle de dor e inflamação em quadros articulares leves.Entretanto são contra indicados na gestação.
  • Antimaláricos (hidroxicloroquina): fundamentais em todos os estágios do LES, inclusive durante a gravidez. Reduzem a atividade da doença e o risco de surtos.
    Corticoides (como prednisona): utilizados em doses variáveis conforme a gravidade das manifestações. Em casos graves, pode-se empregar pulsoterapia com metilprednisolona.
    Imunossupressores (azatioprina, ciclofosfamida, micofenolato mofetil): indicados para comprometimento de órgãos importantes, como rins e sistema nervoso.
  • Terapias biológicas (belimumabe, rituximabe): recomendadas em casos refratários ao tratamento convencional.

LES na gestação

  • Medicamentos seguros:

    • Hidroxicloroquina

    • Prednisona

    • Azatioprina

    • AAS 75–150 mg

  • Contraindicados:

    • Micofenolato

    • Metotrexato

    • Ciclofosfamida (exceto risco de vida)
  • Terapia biológica: No LES, apenas duas terapias biológicas são realmente relevantes: belimumabe e rituximabe. Outras terapias (anti-TNF, tocilizumabe, anakinra etc.) não são usadas para LES.

O prognóstico de pacientes com LES tem melhorado consideravelmente com o avanço da medicina. Apesar de ser uma doença complexa, com potencial de afetar múltiplos órgãos e demandar cuidados especiais na gestação, o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e o acompanhamento multidisciplinar permitem controlar a atividade da doença e garantir melhor qualidade de vida. Muitas pacientes conseguem levar uma vida plena — inclusive com gestações bem-sucedidas — quando acompanhadas de forma apropriada.

 

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Informações retiradas do capítulo 106 do Manual Sogimig

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