Setembro é mês de visibilidade do câncer ginecológico, e a SOGIMIG reuniu duas professoras de referência nacional em patologia do trato genital inferior para falar de duas frentes que mudaram bastante nos últimos meses: o rastreamento com DNA-HPV e o diagnóstico das doenças da vulva. O vídeo completo, com pouco menos de duas horas, está disponível acima.
Como funciona o rastreamento com DNA-HPV?
Na Aula 3, a Dra. Silvana Maria Quintana (CRM/SP: 67715), da USP Ribeirão Preto, explica que o rastreamento está deixando de ser baseado só na citologia e passando a usar o teste de DNA-HPV de alto risco como exame primário, para mulheres de 25 a 64 anos. A lógica é diferente: em vez de procurar a lesão já instalada, o teste avalia o risco de a paciente desenvolvê-la. A professora orienta pedir o PCR de HPV de alto risco, e não a captura híbrida, e lembra que o coteste não é a indicação brasileira para o exame primário.
O que fazer com cada resultado do teste?
Quando o HPV não é detectado, o exame se repete em cinco anos, e a paciente continua no radar do ginecologista, porque o risco é muito baixo, mas não é zero. Quando há HPV 16 ou 18, a paciente vai direto para a colposcopia. Quando há outros tipos de alto risco, entra a citologia reflexa: se houver qualquer atipia, a colposcopia está indicada, e, se a citologia for normal, o PCR se repete em um ano. Em pacientes imunossuprimidas, qualquer HPV de alto risco leva à colposcopia.
A professora reforçou que a presença do vírus, sozinha e sem lesão, não é indicação de CAF. Também comentou as mudanças recentes na vacinação, que passou a incluir crianças de 2 a 8 anos vítimas de violência sexual e mulheres em até um ano após o tratamento de NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ, e o que as novas diretrizes do INCA propõem para as lesões precursoras. O NIC 1 não deve ser tratado de rotina, e o NIC 2 e o NIC 3 seguem com tratamento excisional, com atenção às mulheres muito jovens e à zona de transformação tipo 3.
Como diagnosticar o líquen escleroso e quando fazer a biópsia de vulva?
Na Aula 4, a Dra. Neila Maria de Gois Speck (CRM/SP: 61715), da UNIFESP, mostra como reconhecer o líquen escleroso e diferenciá-lo do líquen simples crônico e do líquen plano. O diagnóstico é predominantemente clínico, e a biópsia fica reservada para dúvida diagnóstica, falha de tratamento ou suspeita de neoplasia, como na presença de ulceração ou mudança de pigmentação. Na criança, ela não deve ser feita.
Quando é necessária, a biópsia de vulva deve usar o punch dermatológico, e não a pinça de colposcopia, que esmaga o fragmento e prejudica a leitura do patologista. O tratamento de primeira linha é o corticoide de alta potência em pomada, com redução gradual e manutenção semanal, e deve ser feito inclusive em pacientes sem coceira, já que a doença está na linha de risco para o carcinoma espinocelular da vulva. A professora alertou que o laser não deve ser a primeira escolha.
O que mudou na classificação das lesões precursoras da vulva?
A professora apresentou a nova terminologia da ISSVD, publicada em maio de 2026, que separa as lesões associadas ao HPV das independentes do HPV, incluindo uma nova categoria benigna, a maturação aberrante vulvar. As duas famílias têm riscos de progressão, tratamentos e prognósticos bem diferentes, e na neoplasia independente do HPV o tratamento é exclusivamente excisional, com margem livre.
O que o debate trouxe para o consultório?
A discussão, mediada pelo Dr. Márcio Couto Gomes, pela Dra. Débora Cristina de Freitas Batista e pela Dra. Mariana Seabra Leite Praça, tratou de perguntas bem típicas da prática. As professoras desaconselham a histerectomia como tratamento de NIC 3, porque ela pode fazer perder a janela para um estadiamento adequado caso exista uma lesão invasora. Falaram também do papel do p16 e do p53 na vulva, que cabe ao patologista indicar, e do que fazer diante de uma paciente com HPV persistente e colposcopia normal: manter o acompanhamento com PCR e colposcopia, sem tratar enquanto não houver lesão.
Se você atende no consultório, vale assistir até o fim e guardar as condutas apresentadas. Para acompanhar outros conteúdos científicos da SOGIMIG, acesse o site e o perfil @sogimig.